Os cristão e a Eutanasia

Os cristãos e a eutanásia
Além de Deus, alguém tem o direito de determinar o tempo de vida de um ser humano?
Embora possa parecer que a tecnologia moderna até certo ponto criou o dilema da eutanásia, a verdade é que muitas civilizações antigas praticavam tanto a eutanásia ativa quanto a passiva, principalmente nos doentes, nos recém-nascidos defeituosos e nos idosos. As filosofias da Grécia e de Roma idealizavam o suicídio como uma forma nobre de morrer. Até mesmo o assassinato não era condenado em todas as sociedades antigas, e muitas vezes os doentes eram abandonados para morrer ou para se virarem sozinhos. Aliás, na época do Novo Testamento a sociedade romana normalmente valorizava o ser humano somente conforme sua posição social, nacionalidade, etc. Em contraste, quando esteve no mundo Jesus Cristo demonstrou, de muitas maneiras, um padrão de vida bem diferente dos valores sociais da época. Ele vivia em obediência à Palavra de Deus, que ensina que o ser humano foi criado conforme a imagem de Deus. A Palavra de Deus também contém leis que condenam o assassinato (Gênesis 1.26; 9.6; Êxodo 20.13). Jesus confirmou a validade dos ensinos do Antigo Testamento sobre a questão do assassinato e ainda levou esse princípio mais adiante (Mateus 5.21-22). Ele não só se opunha ao diabo que mata, mas também destruía suas obras que matam. Os Evangelhos mostram Jesus curando, até mesmo das piores doenças, muitos homens e mulheres das mais baixas condições sociais.

Ao descrever o Dia do Juízo, a Bíblia diz que o Rei Jesus dirá para as pessoas que vivem conforme Deus acha certo:

"Venham, vocês que são abençoados pelo meu Pai! Venham e recebam o Reino que, desde a criação do mundo, foi preparado pelo meu Pai. Pois eu estava com fome, e vocês me deram comida; estava com sede, e me deram água. Era estrangeiro, e me receberam nas suas casas. Estava sem roupa, e me vestiram; estava doente, e cuidaram de mim. Estava na prisão, e foram me visitar". (Mateus 25.34-36 BLH)

Essas pessoas de bom coração, sem entender o que Jesus queria dizer, perguntam:

"Senhor, quando foi que o vimos com fome e lhe demos comida ou com sede e lhe demos água? Quando foi que vimos o senhor como estrangeiro e o recebemos nas nossas casas ou sem roupa e o vestimos? Quando foi que vimos o senhor doente ou na prisão e fomos visitá-lo?" (Mateus 25.37-39 BLH)

Essa revelação é importante para quem quer agradar a Deus. Em resposta, Jesus mostra o que acontece quando obedecemos a essa revelação: "Eu afirmo que, quando vocês fizeram isso ao mais humilde dos meus irmãos, de fato foi a mim que fizeram". (Mateus 25.40 BLH)

Os cristãos do passado e a eutanásia

Jesus fez essa revelação importante para cristãos que viviam numa época em que a sociedade romana aceitava a eutanásia e o aborto. Nos primeiros três séculos depois da morte e ressurreição do Senhor Jesus, os cristãos praticavam esse ensino sem hesitação. Os primeiros cristãos não seguiam os valores "éticos" das sociedades em que viviam. Eles seguiam os valores éticos do Reino de Deus. Henry Sigerist, respeitado historiador de medicina da Universidade Johns Hopkins, descreve a transformação que o Cristianismo produziu então:

Para os gregos do quinto século antes de Cristo e para [as gerações] que vieram depois, a saúde era considerada o bem mais elevado… O homem doente, o aleijado ou o fraco só poderiam esperar consideração da sociedade enquanto seu estado de saúde tivesse condições de melhorar. A melhor maneira de proceder para com os fracos era destruí-los, o que era feito com frequência…

Coube ao Cristianismo a responsabilidade de introduzir a mudança mais revolucionária e decisiva na atitude da sociedade para com os doentes. O Cristianismo veio ao mundo como uma religião de cura… O [Evangelho] tinha como alvo os pobres, os doentes e os aflitos e lhes prometia cura e restauração, tanto espiritual quanto física. O próprio Cristo não havia realizado curas?

Essa nova atitude inspirou os ensinamentos e atividades do Cristianismo no Império Romano. Os primeiros líderes cristãos, inclusive Policarpo (70-160), Justino Mártir (100-165), Tertuliano (160-220) e Jerônimo (345-419), incentivavam os cristãos a cuidar dos doentes. A partir de então, os cristãos se tornaram conhecidos por sua disposição de tratar de pessoas doentes, inclusive de vítimas de pestes, que eram abandonadas pela sociedade. Os historiadores Darrel W. Amundsen e Gary B. Ferngren observam: "Os primeiros hospitais vieram a existir, no quarto século, por causa da preocupação dos cristãos com todas as pessoas, principalmente os mais necessitados, pois o ser humano tem a imagem de Deus".

A Bíblia ensina que o ser humano foi criado conforme a imagem de Deus e que Jesus morreu para salvar toda a humanidade. Esse ensino inspirou os primeiros cristãos a ter um grande respeito pelo valor e dignidade da vida humana. Eles não só cuidavam dos doentes, mas também denunciavam práticas sociais romanas como aborto, assassinato de recém-nascidos, eutanásia e suicídio. "A verdade é que nós, cristãos, não temos permissão de destruir o que foi concebido na barriga de uma mulher, pois o homicídio é proibido", assim escreveu Tertuliano no segundo século.

Além do aborto, que era muito praticado, a sociedade romana também achava normal matar crianças indesejadas ou abandoná-las a morrer expostas ao sol, chuva, noite, etc. Amundsen e Ferngren comentam: "Depois de sua legalização no quarto século, o Cristianismo aos poucos foi introduzindo importantes mudanças no clima moral do mundo romano. Começando com Constantino, os sucessivos imperadores cristãos aprovaram leis com o objetivo de proteger os recém-nascidos. Contudo, a influência mais importante não veio das leis do Império, mas dos Concílios da Igreja, que condenaram o aborto, o assassinato de recém-nascidos e o abandono deles para morrer".

Os primeiros líderes cristãos, de Justino Mártir a Agostinho de Hipona (354-430) assumiram um posicionamento igualmente forte contra a eutanásia. Agostinho afirmou: "Os cristãos não têm autoridade de cometer suicídio em circunstância alguma. É importante observarmos que em nenhuma parte da Bíblia Sagrada há mandamento ou permissão para cometer suicídio com a finalidade de garantir a imortalidade ou para evitar ou escapar de algum mal. Aliás, temos de compreender que o mandamento ‘Não matarás’ (Êxodo 20.13) proíbe matar a nós mesmos".

É evidente que Agostinho estava se referindo também à eutanásia. Por exemplo, para refutar a idéia social de que o suicídio é um meio normal de acabar com as dores e aflições do corpo, Agostinho citou passagens bíblicas sobre nossa responsabilidade de aguardar o céu com paciência (Romanos 8.24-25), e afirmou: "aguardamos ‘com paciência’, precisamente porque estamos cercados pelos males que a paciência deve tolerar até que cheguemos aonde… não mais haverá nada para tolerar".

Poucos sabem que Agostinho enfrentou uma seita cristã no Norte da África que apoiava a idéia do suicídio como uma forma de martírio voluntário. Essa seita via o suicídio como uma maneira de entrar mais rápido na presença de Deus. Essas idéias não são totalmente rejeitadas hoje. Muitos cristãos espiritualmente mal orientados nos EUA e na Europa cedem à tentação de permitir que a eutanásia seja aplicada num membro da família, sob a alegação de que o apressamento da morte os fará ficar com Deus mais rapidamente. Alguns, para não enfrentar a realidade do que estão fazendo, até citam passagens de Paulo: "A vida para mim é Cristo, e a morte é lucro"
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